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Acap se une a museu da UFSC em exposições que releem Cascaes

Abertura da Exposição Tessituras do Invisível, ressignificando as obras de Franklin Cascaes, um dos fundadores da ACAP. Ricardo do Rosário.

Obra do folclorista, um dos oito fundadores da associação, reverbera em “Tessituras do Invisível – Desdobrando Cascaes”, que abre dia 10 deste mês, no Marque, em paralelo com “Cascaes: Os Fios Originários”

Convite da Exposição Tessituras do Invisível no Museu de Arquitetura e Etnologia da UFSC

Uma imersão coletiva na imaginação mítica, gráfica e fabuladora do folclorista catarinense Franklin Cascaes instigou 16 integrantes da Acap (Associação Catarinense dos Artistas Plásticos) a criar uma instalação inédita, reverberando a força do trabalho do pesquisador, um dos oito fundadores da associação. “Tessituras do Invisível – Desdobrando Cascaes” abre dia 10 de março, às 18h30, no Marque (Museu de Arqueologia e Etnologia) no campus da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), em Florianópolis.

A instalação pretende ser uma ponte entre os trabalhos expostos na Galeria do Acervo Franklin Cascaes, onde a obra do artista é preservada, e a criação dos artistas visuais contemporâneos. A proposta, frisa a curadora Meg Tomio Roussenq, não é apenas de homenagear Cascaes, mas ativar sua potência inventiva no presente, permitindo novas narrativas nos diálogos entre gerações, técnicas e sensibilidades. Meg novamente assina a curadoria com Anna Moraes.

Em paralelo, na mesma data na galeria será aberta “Cascaes: Os Fios Originários”, com 22 obras que evidenciam o imaginário e a diversidade de temas e personagens criados pelo artista. “Fios que, retomados e reinterpretados, deram origem à mostra da Acap”, observa a museóloga Aline Pessôa da Ascenção Alcoforado. As obras do acervo do Marque integram a Coleção Professora Elizabeth Pavan Cascaes, criada pelo próprio mestre em homenagem à sua mulher.

Sem filhos, ele doou todo seu acervo em vida a este museu, que atende ao seu desejo de preservar, pesquisar e difundir sua obra e memória. Além de Aline, a concepção da mostra leva as assinaturas do museólogo Lucas Figueiredo Lopes, da restauradora Vanilde Rohling Ghizoni e da técnica em restauração Eloah Cristina de Melo.

50 anos muito bem comemorados

Com “Tessituras…”, a Acap dá sequência à série de eventos que marca seus 50 anos, completados em 2025, festejados com seis mostras. Em todas, o legado dos oito fundadores – Eli Heil, Franklin Cascaes, Martinho de Haro, Max Moura, Ernesto Meyer Filho, Pedro Paulo Vecchietti, Rodrigo de Haro e Vera Sabino – foi ressignificado.

A programação também envolveu o lançamento do livro “Memória, Legado e Resistência – 50 Anos da Associação Catarinense dos Artistas Plásticos”, obra bilíngue de autoria da jornalista Néri Pedroso e da autora convidada, Francine Goudel. E continua agora com “Tessituras…” e o lançamento de um catálogo sobre todas as exposições, ambos programados para março.

O presidente da Acap, Gelsyr Ruiz, reforça toda a sua satisfação em dar à associação o espaço que ela merece no cinquentenário. Estas ações, além de remexer memórias, uniram os talentos do passado com os do presente ocupando espaços nobres da capital catarinense.

E a sétima exposição vem coroar este momento histórico em outro lugar especial, o Marque, que reúne mais de 3.000 obras que formam o acervo de Cascaes. Desta vez, os artistas projetaram um ambiente contínuo, uma “floresta de narrativas”, onde cada trabalho se integra em um cenário com planos translúcidos, sobreposições e passagens.

Em tecidos em preto e branco, a intensidade do traço de Cascaes é evocada em diferentes linguagens. Tem pintura, bordado, desenho, gravura, escrita, costura, texturas e experimentações híbridas, todas tomando como referência um conjunto de imagens disponibilizadas pela curadoria. O visitante atravessará esse território simbólico, observando, entre dobras e sombras, ecos visuais dos seres, mitos, gestos e memórias da cultura regional.

Cascaes, uma presença fundamental

Franklin Joaquim Cascaes, nascido em 1908 e morto em 1983, entrou para a história brasileira pela sua multiplicidade. Pesquisador, antropólogo, ceramista, gravurista e escritor, se dedicou ao estudo e à preservação da cultura açoriana, tornando-se referência em estudos de folclore.

Nascido em Itaguaçu, quando o bairro continental da Capital ainda pertencia ao município vizinho de São José, é figura imprescindível para a compreensão do imaginário e da memória cultural. Tanto que batiza a Fundação Cultural de Florianópolis, além de já ter sido tema de diferentes estudos e livros. Como fundador da Acap, compôs a primeira diretoria na condição de secretário.

Por meio do desenho, da escultura, da escrita e da escuta atenta aos mitos, às lendas e às práticas sociais dos açorianos e seus descendentes, impregnou no imaginário suas bruxas, lobisomens, rendeiras e curandeiras. Não são apenas figuras folclóricas, mas representações das tensões, medos, resistências e sabedorias da comunidade. “As ‘bruxarias do capitalismo’ ameaçando crenças e territórios”, frisava.

Esta última exposição da Acap 50 anos propõe que a arte continue sendo dispositivo de resistência, não apenas porque preserva memórias, mas porque as transforma. E ainda traz novos questionamentos sobre as bruxas que hoje nos assombram.

Curadoria aposta em três eixos instalativos

A curadoria optou por criar três ambientes instalativos distintos, que conversam entre si, mantendo coerência interna em cada núcleo.

1 – Corpo, Território e Ruptura

Neste eixo, as obras investigam o político, o urbano e as violências contemporâneas, com trabalhos que deslocam o medo do mito para o real, expondo estruturas de controle, cerco e captura sobre corpos e territórios. E denunciam as “bruxarias do capitalismo” atuais: especulação imobiliária, crise sanitária, monstros urbanos e adoecimento psíquico.

Foi justamente a urgência da pauta sobre o avanço preocupante dos quadros de estresse, ansiedade, esgotamento emocional e doenças psíquicas na sociedade que motivaram Ricardo do Rosário a criar “Crise”. Utilizando estêncil e acrílico sobre tecido, ele evoca os monstros das crises de pânico contemporâneas por meio de seres tomados por dor, raiva, agonia, medo e desespero.

As obras e os artistas:

  1. Susana Fros – “Território Interdito”| Arame farpado sobre tecido, corpo-território político
  2. Audrey Laus – “Bruxa da Virose” | Material têxtil e plástico reciclável, devastação ambiental
  3. Rodrigo Gonçalves – “Monstro Simoníaco” | Instalação com trama translúcida, cidade como rede de captura
  4. Ricardo do Rosário – “Crise” | Estêncil e acrílico sobre tecido, crise de pânico contemporânea
  5. Andrea V Zanella – “O Que Resta?” | Fotografia/colagem digital, transmutações urbanas
  6. Sílvia Zanatta Da Ros – “Cascaes” | Texto/instalação sobre colonização e “bruxarias do capitalismo”
  7. Roberta Viotti – “Sem Título” | Mata atlântica, especulação imobiliária, perda do imaginário
  8. Eliane Veiga – “Oratio Praesidium” | Estandarte de voal, proteção contra forças contemporâneas
2 – Memória, Paisagem e Metamorfose

Os trabalhos investigam e retomam o gesto de Cascaes — a escuta, a preservação da memória, o registro do que está em vias de desaparecer – de forma atualizada, pela materialidade têxtil, a impressão, a cerâmica e a xilogravura. Obras que pensam a paisagem como portal e memória, como trama viva.

As obras e os artistas:

  1. Dulce Penna – “Sobre Escutas” | Cerâmica, seres híbridos, memória oral corporificada
  2. Maria Esmênia – “A Cortina Rendada” | Papel arroz costurado sobre seda, rendas e tradição
  3. Gavina – “Sem Título” | Xilogravura sobre pano americano, banco como narrador
  4. Maria de Minas – “Quando a Ilha Desperta as Bruxas” | Fotografia, paisagem como entidade mágica
  5. Gelsyr Ruiz – “Memória Impressa – Território Instável” | Impressão em tecido, paisagem em trânsito
  6. Larissa Arpana – “Ser em Metamorfose” | Desenho e pintura em tecido, dualidade e transformação
  7. Laïs Krücken – “Voo” | Frotagem de folha de palmeira, carvão sobre algodão
  8. Rodrigo Pereira – “Fragmentos Ilhéus” | Mosaico em tecido, citações diretas de Cascaes
3 – Presença da ausência

Este terceiro eixo traz, em referência a Cascaes, oito bancos brancos carregados de simbologia e afeto formando um espaço de escuta, encontro, trocas e criação.

Texto de Rosana Ritta.

Sobre a minha obra

Crise: Franklin Cascaes costumava retratar estórias que assolavam os locais da ilha da magia. Muitas obras descreviam seres voadores e bruxas que habitavam o imaginário dos habitantes de Florianópolis no século passado. Ressignifiquei seu estilo, trazendo-o para a contemporaneidade onde uma das coisas que assolam as pessoas são problemas mentais causados pelo excesso de produtividade e positividade (Byung-Chul Han – A Sociedade do Cansaço). Em “Crise”, trago sentimentos relacionados à crise do pânico, onde um medo intenso e súbito surge, sem explicação. Uma explosão intensa de sentimentos é retratada pelos astronautas saindo da lata de “Crise”. Utilizei stêncil e acrílico sobre tecido algodão, em preto e branco, como nas obras de Cascaes.

Crise. Stêncil e caneta Posca sobre tecido 100% algodão. 2026.

O quê: “Exposição Tessituras do Invisível – Desdobrando Cascaes” e “Cascaes: Os Fios Originários”
Onde: Museu da de Arquitetura e Etnologia da UFSC (MArquE) – Rua Engenheiro Agronômico Andrei Cristian Ferreira, s/n – Trindade, Florianópolis – SC
Abertura: 10 de março às 18h30
Visitação: De 11 de março de 2026 até 26 de setembro de 2026. Das 7h às 19h de terça a sexta-feira.

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